Tété Alhinho

A voz maravilhosa de Tété torna dificil não ficar apaixonado por este disco...

“Mornas Ao Piano é um dos discos a escutar em 2018”

in Songlines

“O regresso da lógica sucessora de Cesária Évora”

in The Australian

Tété Alhinho tem o carisma e simplicidade dos maiores nomes da história da música. É simplesmente desarmante. Nome incontornável da música de Cabo Verde, arrebatou o mundo com a sua voz nos anos 90, no grupo SIMENTERA. Em 2004 editou “VOZ” com Mario Lúcio Sousa, um disco que a cristalizou como uma das grandes vozes do nosso tempo. 2017 é o ano do regresso às edições em nome próprio com “Mornas Ao Piano”. Nascido a partir de uma campanha de crowdfunding, “Mornas ao Piano” foi gravado entre Lisboa e a cidade da Praia, em Santiago, com passagem por Roterdão na Holanda. Contou com a participação, nas gravações, de músicos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Cuba, Estados Unidos da America e Portugal, numa viagem pelas sonoridades dos 4 cantos do Oceano Atlântico. Assim é a alma de Cabo Verde. Aqui encontramos a morabeza de Cabo-Verde, o perfume de Cuba ou o calor do Alentejo, terra do seu pai. 

“Lua Bonita” foi o primeiro tema a ser revelado, quando se deram inicio às gravações de “Mornas Ao Piano”, em Setembro de 2015. “Mindel de Mãe Auta” é uma morna dedidaca à sua Mãe, natural do Mindelo, São Vicente. Teté canta sobre a melancolia sem a sombra da tristeza... “É verdade que se escreve melhor sobre o amor num estado de melancolia do que num estado de felicidade. Quando estamos felizes, estamos tão cheios de amor que não há mais espaço para mais nada. Quando estamos apaixonados, partilhamos este sentimento apenas com o nosso amor. Mas quando estamos tristes, temos a necessidade de partilhar com os outros, então você compõe para traduzir este sentimento. Aí existe também a esperança. A crença de que melhores dias virão”.

— Entrevista Diário de Notícias: https://www.dn.pt/artes/a-menininha-tete-alhinho-criou-os--filhos-e-agora-regressa-aos-discos-8886453.html.

— Entrevista jornal Público: https://www.publico.pt/2017/04/08/culturaipsilon/noticia/mornas-ao-piano-de-tete-alhinho-um-disco-que-saiu-no-tempo-certo-1768059.

— Entrevista revista Sábado: https://www.sabado.pt/gps/detalhe/tete-alhinho-e-tempo-de-trazer-mais-crioulidade-as-terras-lusas

— Entrevista RTP: https://www.rtp.pt/programa/tv/p35739/e8

Sobre a Morna a Património imatrial da UNESCO, Tété alhinho escreve: 

"Quis, neste dia singular na historia da nossa cultura, partilhar este pequeno texto escrito em 2015. Lembrar o empenho e as iniciativas  da Celina Pereira desde o início deste processo de candidatura da morna, e a sua contribuição à preservação e divulgação da mesma.Obrigada Celina .

Sobre a Morna elevada a Património imaterial da Unesco

A morna é, sem dúvida, um símbolo Nacional, um factor de identidade e de comunhão de sentimentos. Expressa o que somos, o que sentimos, e conta a nossa historia; as secas, a chuva, a fome, as partidas, os amores e desamores, a morte, assim como o nascimento, a esperança, os heróis, a celebração da vida, etc.

Possivelmente nascida na ilha da Boa Vista, romantizada pelo Eugénio Tavares e enriquecida, posteriormente, pelos meios tons do B.leza, a Morna surgiu com uma estrutura simples e um batimento mais acelerado, tendo merecido ao longo do tempo um enriquecimento harmónico. A Morna continua a ser, em Cabo Verde e em qualquer parte do mundo, um factor de comunhão do sentir cabo-verdiano.

Eu nasci e cresci a ouvir a morna, no Mindelo, pela voz da minha mãe que gostava de a cantar, e a quem muitas vezes acompanhei ao piano. Utilizando a mão esquerda na marcação do ritmo, como aprendi vendo a D.Tututa, e na voz dos diversos cantores e músicos ao vivo, ou através das rádios locais de São Vicente. Não é por acaso, que sem saber como, dei por mim na adolescência a cantar e a conhecer as letras de um grande número das mornas que sempre se ouviram em Cabo Verde.

Com ela chorei e curti as minhas primeiras desilusões e separações amorosas, principalmente nos últimos 15 minutos da rádio Barlavento, no programa “Músicas da Nossa Terra”, e na querida voz do Bana. Com ela exorcizei as dores da separação da família e da terra nos longos anos em que andei por terras estrangeiras e distantes. Com ela embalei os meus filhos e mostrei aos curiosos um pouco da nossa alma de ilhéus. Ganhei o gosto de interpretá-las, normalmente de olhos fechados, numa espécie de introspecção prazenteira, vivendo a carga emotiva e expressiva dos poemas.

Os temas são tão diversos como o amor (Força de “kretxeu”), as partidas (Hora di bai), a morte (Eternidade bo e triste), as separações (Mar de Canal), os elementos da natureza tais como o mar, a lua e a terra,(Lua nha testemunha, Lua bonita, Mar azul), amor patriótico, quotidianos, que num total conseguem criar quadros de imagens que nos permitem o que os autores e compositores nos transmitem.

Segundo tenho entendido, no início, a Morna era um pouco satírica e com letras até inconvenientes. Tal é o caso da Maria Adelaide que por ter uma melodia tão bonita mereceu ser rescrita por outros autores para valorizá-la. Os temas foram diversificando-se de acordo com as épocas e os momentos históricos, e assim, a Morna sendo reinventada e enriquecida ao longo das gerações. Sempre foi, também, um pretexto para um bom momento musical, uma "tocatina", uma serenata, um bom "pé de  txoro" (choro) de saudade da terra ou um bom “pé di badju” (pé de dança) no peito dum “kretxeu” ou de um apaixonado, tornando-se, sem dúvida, a expressão máxima do nosso sentir.

A Morna faz parte da nossa Vida e é o nosso elemento identitário por excelência. Nascemos e aos sete dias, no ”guarda-cabeça” (cerimónia tradicional dedicada à protecção dos recém nascidos) cantam-nos “Ná o minino Ná” (morna que contem uma frase de embalo), morremos e cantam-nos “Eternidade bo e triste” ou “Hora di bai” ou “Partida”.
Pantera ciente disso escreveu ”Morna quim conche inda minino na bu ragazo, na hora di dispidida N’ kre também uvibu oh morna”, em português, “Morna que eu conheci ainda criança no teu regaço, na hora da despedida eu quero também escutar-te ó morna”.

O Hino de Cabo Verde poderia ser uma morna.

Não estudei composição mas tenho o meu instrumento, a Voz. Eu componho de Voz. Há quem o faça com a guitarra, ou com o piano, mas eu faço-o com a Voz. Daí poder fazê-lo na hora da caminhada, nos afazeres da casa ou simplesmente a conduzir. Por isso venho a correr para casa e gravo. Compor de voz dá-me a liberdade que preciso para expressar a minha música e as minhas mornas vivem do amor, à terra, à chuva ao mar à lua, às crianças. Sinto que em todas as mornas compostas em Cabo-verde o amor está sempre presente.

Quando me perguntam como vejo a música tradicional de Cabo-verde, eu respondo que não tenho medo do futuro. Porque passe o que passe, e venham as influências que vierem, quando, por exemplo, num concerto eu entoo uma morna como a “Sina de Cabo-Verde” de Gabriel Mariano e Jacinto Estrela, e um auditório inteiro a canta e a celebra, eu reconheço-me em cada um dos presentes, e é dessa mágica comunhão que vem a minha certeza de que enquanto houver um Cabo-verdiano na terra, existirá a Morna.

O meu pai era Alentejano e veio para estas ilhas que o adoptaram e tornou-se um de nós. Pelo seu sentir, pelos laços familiares que criou e acima de tudo, porque nunca nos impôs a sua cultura. Gostava tanto das mornas, que quando passavam na rádio, principalmente na voz da Arlinda Santos de quem era fã, éramos obrigados a fazer silêncio, sob pena de ouvir um caluda. Aprendi que a Morna, também vive de silêncios.

Hoje é um dia muito bonito, a Morna já é de todos nós,mas acima de tudo é um dia cheio de futuro.

Parabéns Cabo Verde!

 

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