Eneida Marta

A cantora guineense nasceu em Bissau há 42 anos, pouco antes da antiga colónia portuguesa declarar a sua independência. Uma altura auspiciosa, portanto. E faz, por isso mesmo, sentido que Eneida Marta cante a liberdade, o amor, as coisas realmente importantes da vida. E a verdade é que Eneida, nascida numa família de fortes inclinações artísticas, sempre cantou, desde menina. Foi com Juca Delgado, já em Lisboa, que começou a dar passos mais sérios na música, colaborando com artistas conceituados como Dom Kikas, Rui Sangara, Aliu Bari ou Iva Ichi antes de se estrear, em 2001, com Nô Storia, disco que a levou a apresentar-se em palcos de Cabo Verde a França, passando pela Holanda, Alemanha e, claro, Portugal e Guiné Bissau. Seguiu–se, em 2002, o álbum Amari que despertou interesse do gigante da world music Putumayo: nesse mesmo ano, a editora americana incluiu trabalho de Eneida Marta na sua compilação An Afro-Portuguese Odissey. Até à edição do seu terceiro álbum, Lôpe Kai, em 2006, Eneida registou mais uma série de participações em compilações e trabalhos de outros artistas, construindo, a pulso, o seu caminho, singular e distinto, reconhecido com a obtenção de um primeiro lugar num concurso de World Music com o tema “Mindjer Dôlce Mel” que a Putumayo haveria de incluir na compilação Acoustic Africa.

Já em 2008, a Womex selecionou Eneida Marta para se apresentar em showcase perante mais de 3 mil delegados, momento especial de que resultou uma aplaudida digressão internacional. O álbum seguinte viu Eneida Marta a assumir a música de Angola como uma inspiração: Eneida Marta Com Angola na Voz viu-a a abordar a música de grandes nomes da canção angolana como Teta Lando ou os Kiezos, referências de uma infância passada em Bissau onde se escutava muito amúsica produzida em Angola.

Basta ouvir, no arranque de Nha Sunhu (2016), a voz que canta “Ó África, Ó tabanka, Ó povo” para se perceber que Eneida Marta é uma artista especial, que a sua alma possui uma profundidade invulgar e que o seu timbre distinto pode equilibrar lamento e esperança na mesma palavra, no mesmo sopro. Não é difícil apaixonarmo-nos por Nha Sunhu e pela voz de Eneida Marta. Difícil será depois disso mantermo-nos longe dela.

Este percurso trouxe Eneida até ao presente, levando-a a cruzar muitos palcos, de Madrid e Barcelona a Amesterdão ou Vancouver, de Roma a Budapeste e Cidade do México, de Boston a Londres e Berna. E em todos, o mesmo aplauso emocionado de quem encontra uma voz carregada de alma, de sonhos, de dor e de alegria.

Eneida é uma mulher especial, de causas, de força. E é assim que se apresenta no presente, com um sonho. Gravado entre Bissau, Lisboa e Paris, o álbum de Eneida Marta, Nha Sunhu, conta com a sua própria produção, facto que ajuda a explicar o título: “tinha o sonho de produzir um trabalho meu, queria experimentar algumas ideias que fui solidificando ao longo dos anos. Este álbum é o resultado disso, dessa sede de independência”, explica a cantora. Acompanhada por músicos como o pianista Ernesto Leite (de Portugal), o flautista Dramane Dembelé (do Congo), o baixista Gogui ou o guitarrista Manecas Costa (ambos da Guiné), Eneida Marta assina um trabalho de extraordinária beleza e complexidade onde também participa os Netos de Bandim, grupo de percussões tradicionais da Guiné: “quis incluir a energia e autenticidade da música africana”, justifica Eneida Marta. Os textos resultam de uma selecção de trabalhos de alguns dos mais destacados poetas guineenses, excepção feita a “Nha Principe”, que a própria Eneida Marta escreveu. “A minha música é guineense”, afirma Eneida Marta que, explica ainda como o cantor do Congo Lokua Kanza lhe disse um dia “não conheço o teu país, mas sinto que o compreendo por causa da tua música”.

Buscando as melodias na própria identidade da Guiné e cruzando o género local Gumbé com o jazz, Eneida Marta construiu um som próprio que tem como referências nomes clássicos da música guineense como, entre outros, José Carlos Shewarz, Ernesto Dabo ou Zé Manel. “Curiosamente”, diz Eneida Marta, “não me inspiro muito em mulheres, em cantoras. Em casa ouço homens como Marc Anthony, Lokua Kanza, Andrea Bocelli, Zé Manel ou Manecas Costa”. Talvez isso explique que a voz que realmente marca Eneida Marta seja a sua voz interior, a que a faz cantar a vida, o amor, em letras de poetas que, como ela explica,“deixam sempre algo para decifrar”.

Este ano de 2019, mais precisamente do dia do seu aniversário, dia 17 de Julho, Eneida Marta presenteou-nos com o primeiro single do seu novo álbum “Ibra”, que é já um enorme sucesso nas rádios da Guiné-Bissau e em Portugal, com especial destaque para RTP África. Conforme as suas palavras, o primeiro single “Homis di Gossi”, “está a ser um sucesso absoluto pela mensagem que é muito forte e pela excelente edição do vídeo. É um tema que está a criar debates na sociedade, superou as minhas espectativas”.

 “Homis di Gossi” é um acordar de consciência para aqueles homens que deixam os filhos ao abandono e sobre a entrega total da responsabilidade de educação nas mães. Curiosamente, o novo single de Eneida Marta, tem assinatura de um homem, Eric Daro, antecipando o nascer de uma nova consciência coletiva e social nos tempos pós-modernos. 

Sobre "IBRA"

O quarto trabalho discográfico de Eneida Marta, chama-se "IBRA”, em homenagem ao músico Ibrahim Galissa, mestre guineense da kora, falecido prematuramente este ano, e músico de eleição de Eneida. Assim anuncia Eneida Marta: “o meu álbum "IBRA" é uma homenagem ao músico que me acompanhou ao longo de toda a minha carreira "IBRAHIMA GALISSA" que infelizmente acabou por falecer deixando um vazio enorme em mim e na minha banda. Gostaria que as pessoas um dia se lembrassem deste disco como aquele que retratou um dos temas mais sensíveis na sociedade "ABANDO DE UM FILHO", mas acima de tudo o disco que imortaliza a memória de IBRAH GALISSA.  Eu e o meu produtor tínhamos uma sintonia extraordinária! Isso veio a facilitar todo o trabalho. Contei ainda com duas participações especiais, o ícone da música guineense ZÉ MANEL e a artista revelação do momento MISSY BITY. Creio que a grande diferença entre este disco e os outros é o facto de, neste trabalho, misturar sons acústicos tradicionais com sons mais eletrónicos, tornando-o um disco bastante abrangente em termos de abordagem artística e de sonoridade. Gostava que as pessoas ouvissem este meu IBRAH que, também é vosso, de coração aberto”, Eneida Marta.

A produção de "IBRA" tem a assinatura do produtor, ATHANASE KOUDOU, de Abidjan, que já trabalhou com alguns dos grandes como o SALIF KEITA, MONIQUE SEKA, RICHARD BONA, etc.

 ALMA NA FALA — o segundo single do aclamado novo disco “IBRA”.

Tema composto por outro grande nome da música no feminino da Guiné-Bissau, Karyna Gomes, “Alma na Fala”, é uma espécie de conversa com Deus: “É uma profunda entrega a quem nos criou”, afirma Eneida Marta. “A voz da Guiné-Bissau”, como descreveu o Jornal I (pode ler a entrevista completa aqui/ setembro 2019), assume assim, de forma sincera e até um pouco desarmante, a espiritualidade na sua arte. “A humanidade atravessa um período muito difícil. Dinheiro e poder assumem-se muitas vezes como verdadeiros deuses, fazendo-nos esquecer valores como a gratidão, compaixão ou sentimento de empatia uns pelos outros. A sociedade faz-nos viver tudo muito rápido, com poucos momentos para escutar ou até conversar connosco próprios. Neste tema, procurei abrir esse espaço dentro de mim própria, de utilizar o meu dom, também como forma de agradecimento por todas as coisas boas, e desafios que tenho encontrado no meu caminho. É esta a minha expressão, minha “Alma na Fala”. O vídeo de “Alma Na Fala”, realizado pela Onda Africana, foi filmado na cidade de Bissau.

Ao vivo, Eneida Marta será acompanhada por um quarteto acústico com piano/guitarra, percussão e baixo e com esse formato, a cantora pretende revistar temas do seu repertório com novos arranjos. “Curiosamente”, adianta, “estar a tocar as minhas canções com menos instrumentos fez-me redescobrir a minha própria música”. Eneida é uma cantora especial, enfim, porque é uma pessoa especial. Já foi embaixadora da Unicef para o seu país e confessa ser uma mulher de causas, explicando que a sua real missão “é trabalhar com as crianças. A música”, prossegue, “é um veículo que Deus criou para que eu conseguisse fazer o que mais quero, que é ajudar os outros”. Não será mesmo nada fácil ficar longe de Eneida Marta e do seu sonho…

 

Eneida Marta é uma artista especial, a sua alma possui uma profundidade invulgar e o seu timbre distinto pode equilibrar lamento e esperança na mesma palavra, no mesmo sopro. Não é difícil apaixonarmo-nos pela voz de Eneida Marta. Difícil será depois disso mantermo-nos longe dela. Já foi Embaixadora da Unicef para o seu país e confessa-se uma mulher de causas, sem problemas em explicar que a sua real missão “é trabalhar com as crianças. A música”, prossegue, “é um veículo que Deus criou para que eu conseguisse fazer o que mais quero, que é ajudar os outros”. Não será mesmo nada fácil ficar longe de Eneida Marta e do seu sonho…” Nuno Pacheco in jornal Público.

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